| Meditação
sobre a vida
(Nota Pastoral da Conferência
Episcopal Portuguesa)
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Meditação sobre
a vida
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Introdução
1. Na nossa sociedade a vida é, frequentemente, tema de notícia.
E é natural que assim seja, pois não sendo exclusiva do homem, a
vida define o próprio homem, na sua dignidade, na sua
responsabilidade, no drama da sua existência, no horizonte da sua
esperança, que se afirma como desejo de mais vida, de uma vida
melhor. Sendo o seu dom mais precioso, o homem encontra nela um
desafio para a liberdade, a motivação para a generosidade e a
responsabilidade: a vida torna-se, para ele, o fundamento
principal da exigência ética, porque aí se descobre como ser
responsável perante a sua própria vida e perante os outros seres
vivos, sobretudo os outros homens, chamados a descobrir a vida no
diálogo fraterno e na corresponsabilidade mútua. Como afirma João
Paulo II, “trata-se de uma realidade sagrada que nos é confiada
para a guardarmos com sentido de responsabilidade e levarmos à
perfeição, no amor, pelo dom de nós mesmos a Deus e aos irmãos”(1)
.
Na maneira de abordar o problema da vida, o homem exprime o carácter
paradoxal e, por vezes, contraditório da sua própria existência.
É capaz de beleza e de drama, das mais sublimes expressões de
generosidade, e das mais abjectas manifestações de violência e
de desprezo pela vida. A alegria encantada da mulher, que exulta
quando lhe foi dada a notícia da sua maternidade ou recebe pela
primeira vez, nos seus braços, o filho recém-nascido, é
ensombrada pelo drama de mães que abandonam os seus filhos ou
lhes truncam a vida antes de nascerem, frequentemente instigadas
por outros. À generosidade heróica de tantos ao serviço da vida
e dos seus irmãos, contrapõe-se a violência de quem não hesita
em matar ou prejudicar gravemente os seus irmãos, nas suas
possibilidades de viver. Perante estas atitudes contraditórias
frente ao mistério da vida, sentimos como o homem precisa de
redenção.
A nossa sociedade tem sido, nos últimos tempos, atravessada por
manifestações desta contradição. Anuncia-se com júbilo o
resgate de sobreviventes, depois de vários dias soterrados nos
escombros de uma tragédia e noticia-se, com ternura, a descoberta
de um bebé abandonado. A ciência genética abre novas esperanças
à qualidade de vida e há já pais a congelar as células
estaminais do cordão umbilical dos seus bebés. Mas
simultaneamente ressuscita-se uma campanha violenta a favor da
legalização do aborto e a sociedade assiste perplexa à extensão
do fenómeno de abusos sobre crianças.
A doutrina da Igreja sobre a vida, a que o Santo Padre chama o
“Evangelho da Vida”, é conhecida de todos, e é sincero o
esforço dos cristãos para a porem em prática, embora com a
imperfeição inerente à nossa fragilidade pecadora. A relevância
que têm assumido, entre nós, nos últimos tempos, os problemas
da vida, leva-nos a convidar todos os cristãos a fazerem,
connosco, uma meditação sobre a vida e a aprofundar mais o
“Evangelho da Vida”, pois só ele pode ser a fonte inspiradora
da exigência moral de todas as nossas atitudes perante a vida.
A vida é um dom de Deus
2. A plenitude da vida é a definição de Deus. Ele é o Vivo por
excelência. O nosso Deus é um Deus vivo (cf. Jos 3,10). N’Ele
a vida é perfeita e definitiva: Ele vive pelos séculos dos séculos
(cf. Ap 10,6; 15,7). Deus vivo, Ele é a fonte da vida. “N’Ele
vivemos, nos movemos e existimos” (Ac 17,28). O próprio Jesus
reconhece ter recebido a vida de Deus Pai: “Porque assim como o
Pai possui a vida em Si Mesmo, do mesmo modo concedeu ao Filho
possuir a vida em Si Mesmo” (Jo 5,26); “e como o Pai, que
vive, Me enviou e Eu vivo pelo Pai, assim aquele que me receber
como alimento viverá por Mim” (Jo 6,57).
Toda a vida é uma participação da vida divina. Nós vivemos
porque um sopro divino nos tornou vivos. Esta convicção
atravessa a Bíblia do primeiro ao último livro (cf. Gn 2,7; Ap
11,11). A vida é, pois, o primeiro dom de Deus, e a sua manifestação
mais nobre é louvar o Senhor que nos faz viver. Cultivá-la e
respeitá-la é manifestação da nossa fidelidade ao Deus que nos
faz viver. O respeito pela vida ganha dimensão religiosa, e
constitui uma mensagem gravada no coração de cada homem,
tornando-se lei natural e universal. Mas quem reconhece Deus como
fonte da vida, sabe que qualquer agressão contra ela magoa o coração
de Deus. O respeito pela vida faz, assim, parte da lei fundamental
dada por Deus ao seu Povo: “Não matarás” (Ex 20,13).
Este dom divino da vida atinge a sua expressão máxima em Jesus
Cristo. Ele é a vida (cf. Jo 14,6). Comunicar a vida e fazer
viver é a razão de ser da Sua missão: “Eu vim para que tenham
vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10). É que Ele, como
Filho eterno de Deus, participa, desde a eternidade, na plenitude
da vida: “N’Ele estava a vida e a vida era a luz dos homens”
(Jo 1,4). Esta plenitude da vida que, na ressurreição, se
exprime completamente no Homem Jesus, abre-nos para o verdadeiro
horizonte da vida, que tem a sua origem em Deus e só em Deus
encontrará a sua plenitude.
A vida é um longo caminho
3. A narração bíblica das origens (cf. Gn 1) situa a criação
do homem no termo de um longo caminho, onde o homem sobressai como
plenitude da criação. E nesse momento uma nova caminhada se
inicia, para a humanidade e para cada homem, até à sua
plenitude. Para toda a humanidade, esta longa caminhada constitui
a história, onde a vida humana se vai afirmando dramaticamente,
definindo-lhe progressivamente os contornos da sua dignidade.
Nesta caminhada da história da vida, Jesus Cristo torna-se um
marco decisivo e definitivo, porque revela o verdadeiro sentido da
vida no amor dos irmãos, e na Sua morte e ressurreição anuncia
a superação da morte, como passagem para uma vida perfeita e
definitiva.
Mas à semelhança desta longa caminhada da história, também a
vida de cada homem se apresenta como um longo percurso desde o seu
início no seio materno até à plenitude escatológica. Tal como
no início da criação, a vida aparece como uma “semente de
vida”, chamada a desabrochar e a desenvolver-se até à sua
plenitude. No início do processo da vida, a vida plena é apenas
uma esperança anunciada. Mas ela tem a objectividade de toda a
verdadeira esperança, pois contém toda a potencialidade para o
seu desenvolvimento, do ponto de vista físico, na maravilha do código
genético, e do ponto de vista espiritual, na força que lhe vem
de ser participação na vida de Deus. A vida tem, desde o seu início,
toda a dignidade de que se reveste, pois logo aí podemos já
contemplar o seu mistério. Não é lícito tratar com menos
respeito a vida nas suas etapas de crescimento com o pretexto de
ainda não ser a vida humana na sua plenitude. A vida humana é,
desde o seu começo, a principal fonte da exigência ética e
afirmação da nossa responsabilidade perante ela.
À luz da fé, esta caminhada da vida é o percurso percorrido
desde o primeiro “sopro de vida” recebido de Deus, até à
plenitude da vida, em Cristo, na ressurreição final. Sabemos que
é um dom ameaçado, não apenas pelas vicissitudes naturais, mas
pela nossa fragilidade pecadora. O processo da vida é um caminho
de redenção. Caminho percorrido com pleno sucesso por Jesus
Cristo, n’Ele nos fortalecemos para a conquista da vida. Filho
de Deus, Ele torna-se, para nós, na Sua ressurreição, a fonte
da vida. Participando na Sua vida plena, todos podemos aprender a
viver em Cristo (cf. Rm 14,7ss). A sua Palavra torna-se fonte de
vida: “Eu vos garanto: quem ouve a minha Palavra e acredita
n’Aquele que Me enviou, possui a vida eterna” (Jo 5,24). Ele
próprio se torna “pão da vida” (Jo 6,48.51). A fé em Jesus
Cristo põe o homem em contacto com essa fonte da vida. “Aquele
que acredita em Mim… do seu seio jorrarão rios de água viva”
(Jo 7,38).
Este novo horizonte de vida que se abre para nós, em Jesus Cristo,
ensina-nos a contemplar o mistério da vida desde o seu início.
Então percebemos que a fidelidade a Jesus Cristo nos torna em
servidores incansáveis da vida.
Servidores da vida
4. O facto de a vida ser um dom de Deus, participação na própria
vida divina, exige a cada homem que seja servidor da vida, da sua
e da dos seus irmãos. Tal como a vida em Deus é comunhão de
amor entre pessoas, a vida que d’Ele recebemos convida-nos à
comunhão de amor com os outros homens. A vida não é um processo
isolado, que possa ser vivida no individualismo. Cada um de nós
é responsável pela vida dos seus irmãos, na medida em que os
podemos ajudar a construir a sua própria vida, descobrindo cada
um de nós, nessa inter-ajuda fraterna, o sentido da própria
existência. Essa é a mensagem de Jesus, que Ele porá
radicalmente em prática no dom da Sua vida para que todos os
homens tenham vida: “Quem procura ganhar a sua vida, vai perdê-la;
e quem a perde, vai conservá-la” (Lc 17,33).
Está aqui anunciada a fecundidade da Páscoa de Cristo, fonte de
vida, donde nasce a Igreja que surge como um “povo da vida”.
“Interiormente renovados pela graça do Espírito, «Senhor que
dá a Vida», tornámo-nos um povo pela vida e como tal somos
chamados a comportar-nos” (2) . Nascida da vida nova do
ressuscitado, a Igreja define-se como “um povo pela vida”. Não
lhe peçam que ela, alguma vez e em qualquer circunstância, seja
contra a vida, porque, se o fizer, será infiel à sua natureza e
missão. Promover a vida é, para a Igreja, uma missão. “Somos
enviados como povo. O compromisso de servir a vida incumbe sobre
todos e cada um. É uma responsabilidade tipicamente eclesial, que
exige a acção concertada e generosa de todos os membros e
estruturas da comunidade cristã”(3) .
A doutrina sobre a vida é parte constitutiva do Magistério da
Igreja, como “povo da vida”. É um dos casos em que a doutrina
da Igreja, sujeito de verdade, prevalece sobre as posições
pessoais individuais. O ponto de referência para o Povo de Deus
é este Magistério da Igreja, voz perene da tradição apostólica,
aferido na comunhão eclesial a que preside o Santo Padre,
Sucessor de Pedro.
5. A paternidade e a maternidade são a primeira expressão deste
serviço da vida. Ao homem e à mulher foi dado por Deus esse dom
maravilhoso de serem colaboradores do Criador na comunicação da
vida. O acto de procriar é um serviço à vida, que origina uma
exigência de serviço a essa vida, enquanto pais e filhos
coexistirem neste mundo. Como são maravilhosos os testemunhos de
tantas mulheres mães, que se sujeitam a todos os sacrifícios
para salvarem a vida dos seus filhos, em maternidades de risco; e
da generosidade abnegada dos pais que sofrem e lutam para que os
seus filhos vivam e cresçam na vida. O amor de pai e de mãe é
um valor fundador da dignidade humana. Isso torna mais dramática
a fraqueza daqueles e daquelas que abandonam os seus filhos ou
mesmo os impedem de nascer.
O ideal do serviço à vida exprime o que de mais nobre e generoso
existe na missão da Igreja. São páginas grandiosas, tantas
vezes silenciosas, escritas no “livro da vida” por quantos se
dedicam aos seus irmãos, doentes, pobres e marginalizados, idosos,
crianças abandonadas. É a mão amiga que se estende à mãe em
dificuldade, ou se oferece generosamente para colaborar com os
pais na educação dos seus filhos. Toda a missão da Igreja é
uma missão para a vida e pela vida.
O drama do aborto
6. Devido à actualidade e à gravidade do tema, não podemos
deixar de lhe fazer uma referência especial nesta “meditação
sobre a vida”. É um drama antigo. Tal como outras manifestações
de violência e de desrespeito pela vida do próximo, o drama do
aborto coexiste com a dignidade da vida, sobretudo com a grandeza
do dom de a poder comunicar. O que é relativamente novo, mas
realmente um retrocesso, é a tentativa de o “normalizar”,
tirando-lhe a gravidade ética de que se reveste, porventura
considerá-lo um direito da mulher-mãe.
Há um aspecto em que facilmente todos se põem de acordo: a
dramaticidade de que se reveste o aborto nas sociedades contemporâneas.
O sofrimento espiritual provocado na mulher que aborta, esse
existe em todas as circunstâncias.
Estamos de acordo que toda a sociedade se deve empenhar, por todos
os meios legítimos ao seu alcance, para erradicar este drama. Mas
pensamos, em nome do carácter sagrado da vida e da dignidade da
mulher, que a legalização do aborto não é o caminho. Não se
constrói uma sociedade justa sobre a injustiça. Em nenhum
momento podemos esquecer que a vida é o primeiro fundamento da ética.
O aspecto crucial
7. O ponto crucial de toda a polémica acerca da legalização do
aborto consiste nisto: o embrião humano e o feto são ou não um
ser humano desde o primeiro momento? Todos os defensores das leis
abortistas se desdobram em explicações justificativas, dando a
entender que nas primeiras semanas o feto não é uma pessoa
humana. Recorrem mesmo à filosofia de inspiração cristã que
define a pessoa como uma capacidade de relação, para afirmarem
que só estamos perante uma pessoa humana quando é clara a sua
capacidade de relação.
Quem não for capaz de escutar a Palavra da Bíblia e da Igreja,
ao menos ouça a ciência, que tão maravilhosos progressos fez no
campo da genética. Esta torna-se uma questão cada vez mais
indiscutível do ponto de vista científico. São os cientistas
quem o afirma: desde os primeiros momentos, estabelece-se uma relação
vital, que se desenvolve progressivamente, entre o feto e a mãe,
afirmando assim a sua alteridade em relação à própria mãe. O
Papa afirma claramente: “O ser humano deve ser respeitado e
tratado como uma pessoa desde a sua concepção e, por isso, desde
esse momento, devem-lhe ser reconhecidos os direitos da pessoa,
entre os quais e primeiro de todos, o direito inviolável de cada
ser humano inocente à vida”(4) .
No estádio actual da ciência, começa a ser incompreensível que
um “Estado de Direito”, cuja essência é a defesa e a promoção
da vida, não tenha uma posição oficial em relação a esta
questão. Para nós ela é clara: sempre que uma pessoa tem de
tomar uma decisão, seja ela qual for, acerca do aborto, toma uma
decisão, na responsabilidade da sua liberdade, acerca da vida ou
da morte de um ser humano, que por estar no início da caminhada
da vida, tem direito a que o deixem e ajudem a percorrer esse
caminho.
Desfazer algumas confusões
8. Está provado que a legalização do aborto é uma questão
fracturante da sociedade. Cada cidadão é chamado a ter uma posição
pessoal responsável e reflectida. Para isso muito ajudará o
esclarecimento de algumas confusões que alimentam a própria
discussão pública de tão delicada matéria.
* Será o aborto uma questão política, no sentido em que decorra,
como corolário, de certas ideologias políticas, como forma de
conceber a sociedade?
Parece-nos que não. Houve já quem afirmasse que o aborto é uma
exigência de determinadas orientações políticas. É preciso
"despolitizar" o problema e com isso a discussão ganhará
em objectividade. A defesa da vida é um valor supra-político, na
medida em que deve inspirar qualquer política que esteja ao serviço
do homem e da sociedade. É indigno da maturidade política de um
Povo que alguém seja a favor da legalização do aborto só
porque pertence a um determinado partido ou segue uma certa visão
da sociedade.
* Será o aborto uma questão religiosa?
Os defensores da legalização do aborto pretendem, por vezes,
fazer passar essa mensagem, remetendo o problema para o foro íntimo
da consciência e afirmando que num Estado laico, onde há separação
entre a Igreja e o Estado, não se pode impor à sociedade a
dimensão religiosa do problema. Os cristãos, porque acreditam
que toda a vida vem de Deus, encontram na sua fé um motivo
profundo para defenderem a vida. Mas a inviolabilidade da vida
humana, desde o seu início até à morte natural, é uma questão
de direito natural. É um dos alicerces da convivência ética dos
homens em sociedade. E quando os decisores políticos relegam o
problema para o campo das opções de consciência, é preciso não
esquecer que na moderna concepção dos Estados, o Estado é
considerado “pessoa de bem” e, por isso, também tem consciência.
* Será o aborto um direito da mulher?
Todos reconhecemos que a mulher é protagonista principal, embora
não única, no drama do aborto, porque a decisão é sua, porque
lhe sofre as consequências. Mas o aborto não é redutível a uma
afirmação dos direitos da mulher, do direito ao que se passa no
seu corpo, como tem sido afirmado. Uma das primeiras manifestações
da maternidade é o reconhecimento, pela mãe, da alteridade do
seu filho, isto é, reconhecer que traz no seu seio outra pessoa,
em relação à qual, além dos deveres específicos da mãe, tem
os mesmos deveres que qualquer indivíduo tem perante a vida de
outrem.
* Os deveres morais para com o nascituro confundem-se com a moral
sexual?
Não! Embora uma sexualidade equilibrada seja elemento importante
na procriação equilibrada e responsável, o problema do aborto não
é uma questão de moral sexual. Isso sempre foi claro na moral da
Igreja. Os mandamentos da Lei de Deus distinguem os conteúdos da
obrigação moral. Um diz “não matarás” e veicula toda a
exigência da Lei de Deus perante a vida dos outros. Um mandamento
diferente manda-nos “guardar castidade”, ou seja, convida-nos
a viver a sexualidade como expressão de dom gratuito e de comunhão
amorosa.
* Será possível descriminalizar o aborto?
A resposta a esta questão depende daquele ponto crucial, se sim
ou não consideramos o nascituro um ser humano desde o início. Se
a nossa posição é essa, não vemos como se poderá tirar ao
aborto a classificação de “crime”. A violência mortal sobre
um ser humano constitui a natureza do principal acto criminoso. Na
sequência da Tradição, confirmada pelo Concílio Vaticano II, o
Magistério da Igreja continua a considerar o aborto um “crime
abominável”. Na Evangelium Vitae, João Paulo II afirma:
“Dentre todos os crimes que o homem pode realizar contra a vida,
o aborto provocado apresenta características que o tornam
particularmente grave e abjurável”(5) .
Como em todos os crimes, circunstâncias psico-sociais podem
tornar "inimputável" ou com responsabilidade atenuada,
quem praticou um aborto ou para ele contribuiu. Mas isso não
retira ao acto em si mesmo a sua natureza criminosa, que não
decorre apenas da subjectividade de quem o pratica, mas da
gravidade da acção em si mesma.
* Será possível despenalizar o aborto?
Isso corresponde a perguntar se é possível, do ponto de vista
legal, definir um crime sem lhe atribuir uma pena. Não nos
compete pronunciar-nos sobre essa questão de natureza jurídica.
Parece-nos, no entanto, que o caminho não é "despenalizar",
mas considerar, em sede de julgamento, eventuais circunstâncias
atenuantes, até porque o grau de responsabilidade não é o mesmo,
quer entre as mulheres que abortam, quer entre aqueles que as
condicionam e contribuem para o aborto.
Seja qual for a resposta dada a esta questão, ela não poderá
fundamentar qualquer forma de legalização do aborto que
constitua um direito da mulher.
Para além do drama do aborto
9. Vida promovida, vida ameaçada, eis o paradoxo da dimensão
dramática da vida humana. O único caminho para precaver todas as
formas de violência sobre a vida humana, é o cultivo da sua
beleza e dignidade e do serviço generoso que lhe podemos prestar.
Só amando e servindo a vida, evitaremos as violências sobre a
vida. Não esgotemos no drama do aborto os nossos deveres para com
a vida. Esta meditação sobre a vida é para fazer todos os dias
porque servir a vida é adorar o Deus Vivo e Criador.
10. Não queremos terminar esta meditação sem uma palavra de
reconhecimento e estímulo a todos aqueles e aquelas que, no dia a
dia, sacrificam a própria vida para defender a do próximo, e a
todas as pessoas e grupos que têm alertado a sociedade portuguesa
para o valor fundamental da vida, com tudo o que deve ser feito
para a salvaguardar e promover, das famílias ao Estado.
Fátima, 05 de Março de 2004
(1) João Paulo II, Carta Encíclica EVANGELIUM VITAE,
25.03.1995, nº 2.
(2) Ibidem, nº 79
(3) Ibidem, nº 79
(4) Ibidem, nº 60
(5) Ibidem, nº 58
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